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2ª conj., pres. do ind., 3ª p. s.

Quarto cheio, e dessa vez não era ficção. Ou será que era? A realidade se confundia com o ficcional como as nossas pernas entrelaçadas umas nas outras.

O quarto era cheio de duas. Cheio de todo o tanto que havia em cada uma, infinitamente multiplicado por todo o outro tanto que se cria nos encontros. Todo o tanto das possibilidades. Todo o tanto do aqui e agora.

Havia sido verão e agora era outono. Era sempre aqui e agora. Era leve. Era bom. Estávamos bem. E ainda estamos aqui. Tudo por enquanto, e isso independe de quanto tempo passe. Só se continuamos a dar atenção às histórias podemos saber como elas terminam. Aliás, mais importante que isso, já que de muitas histórias já sabemos de antemão o final: apenas nos atendo às histórias podemos saber o desenrolar do enredo. E isso é tudo o que nós temos. A trama é a cereja do bolo – não o desenlace.

Ela lê ao meu lado ainda que o presente já tenha passado. A realidade se confunde tanto com o ficcional quanto há partes dos nossos corpos para se confundirem. A vida pulsa. Dentro do meu corpo. Eu sei bem onde. E fora dele, também. “Um puta céu de nuvens”, um azul quase insuportável pairando sobre as nossas vidas no dia lá fora. Mas naquele quarto os olhos se fechavam ou se viam uns aos outros ou liam alguma coisa. Eu leio ao lado dela, que tudo é uma questão de perspectiva. Orbitávamos entre tempos e espaços ou a gravidade existia, implacável, mas seu objetivo era unicamente manter as letras bem presas aos livros. De um modo ou de outro, tudo o que importava era a literatura. Quem poderia afirmar o que é real?

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aqui jaz
outra mulher
que ousou
falar demais

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ventura

talvez
hoje
que foi um dia intenso
e com potencial pra tenso
com o perdão da rima péssima

seria um bom dia pra ter teu colo
ou talvez a companhia da minha mãe
pra atravessar a noite

felizmente,
não tanto por inseguranças quanto por alegrias

mas
justamente porque o tempo passa

hoje

eu vou dormir comigo.

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ventre

o corpo está cansado e a cabeça é um caos
nem se fala
(eu realmente queria uma sessão de terapia agora às 22h16)

uma leve tremedeira nas mãos
admiti estar exausta
cansei do meu próprio bom humor
cansei de segurar que llevo bien lo de mi cuerpo
dios, si ya no sé cual es mi lengua madre!!!!

minha mente está tão abarrotada de coisas que parece estar vazia
é difícil escrever

por sorte firmei bem a terra, o terreno, as sementes da minha mente
me digo uns “que que isso, mulher” em resposta a uns pensamentos estapafúrdios
mas ainda os tenho, é verdade, ainda os tenho

sou feliz pelo inabalável
eu sou mais forte, sei que sou
e que isso me tome é só o que importa

estou cansada de hoje-hoje, é bem verdade
mas há esperança sobre haver ânimo no amanhã

então não há nada perdido.
é só cansaço. justificado, compreensível.

 

 

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a frase mais romântica da semana

eu queria que fosse possível fazer um poema
/ recortado /
que nem aquela cena de hedwig que mostrava
ORELHA           NARIZ           LÁBIO       BUNDA

e sei lá mais o que

porque por mais que eu te olhe como um todo
a verdade é que minha mente sempre vai focar o zoom nalguma coisa

porque uma voz
um sorriso
um papo
uma coxa
ou covinha                           (só a título de exemplo)
já é intensidade demais
, por si só,
pra que eu consiga dar conta de sorver mais que um item de cada vez

são várias referências recicladas
beleza americana
e algumas ganhando sentido agora
e e cummings
mas o foco é que minha mente se alegra
porque me é impossível pensar em outra coisa além do aqui e agora

;

fazer uma fotografia do que você me parece ser
e do que você tem representado
por estar na minha vida
e deixar escapar estar também feliz por isso

eu sinto que eu tô viva
(te adicionando à minha lista de evidências)
quando, com a boca ou os olhos – que diferença há entre um e outro? – no teu corpo
eu percebo o quanto gosto do teu corpo
em mente, carne e coração imaterial
e meu olho te morde algo
minha boca te fita teus dentes sobre teu lábio
um gemido sufocado
entrega
e outros tantos em alto e bom som

é noite alta e eu nem vi o tempo passar
quando vi foi que deu sono
que os números deram o clique na minha cabeça: não somos sonho de uma noite de verão
somos qualquer história que não foi escrita ainda
|
e eu me seguro a cada página tentando não escorregar-antever a próxima
e é até fácil aderir, e eu gosto disso
porque tudo aqui é carne

macia, convidativa, certa do que quer e do que não quer.