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às vezes eu tento me enxergar como outra fora de mim pra conseguir me olhar com olhos de terceiros (porque me amar por mim mesma ta difícil).

e eu me vejo. me vejo forte, me vejo bonita, me vejo capaz. mas não me sinto assim. sabe?

e acho que é aí que mora a diferença. eu não posso me amar como uma outra pessoa me amaria porque esse amor que vem de fora nunca vai chegar tão fundo quanto eu sou.

talvez a gente nunca consiga amar alguém por inteiro porque isso significaria abrir mão de si, o que por sua vez significa que lá no fundo a gente sabe que é só amor a si que a gente deve. que o amor pelos outros vem por consequência, quando a gente transborda de amores por si mesmo.

me sinto, nesse mar, a própria isca, o próprio anzol e o próprio peixe. ao mesmo tempo. como numa santíssima trindade, só que regida pelo sol.

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memória

o foda é que eu nem lembro mais

você dentro de mim
seu corpo
sua voz

já estou começando a me esquecer
só não posso pensar muito que me lembro
mas se não penso
já estou começando a me esquecer

e seus defeitos facilmente sobressaem

não, não,
não estou tentando me convencer de nada
já to mais que convencida
e nem precisei me dar ao trabalho,
você fez tudo sozinha,
obrigada

a questão aqui é só minha, pode ir embora
tenho só pensado no que é que fica
em como a memória trai a gente
nos motivos que você deve listar diariamente pra se convencer que está feliz
eu sei, eu faço isso também

é tão esquisito, né?
escrevendo assim, como se fosse pra você, eu quase consigo querer tua amizade de volta na minha vida

mas é quase
é só quase, mesmo

quanto de você eu inventei?
quanto de nós mesmas nós somos com o outro?
até que ponto é possível ser autêntica consigo?
às vezes me afasto tanto de quem você era (ou quem eu achava que era) que nem consigo entender como pudemos estar juntas

especialmente depois que a eletricidade acabou
já faz um tempão, lembra?

é tão estranho.
nena agora é uma palavra estranha. eu nem sei mais falar.
desaprendi.

nos desaprendemos.

às favas com “não, meu doce amor, eu nunca te amei”
foi-se embora como os pufes da Cultura

eu te amei, sim
te amei pra caralho
só não tem mais doce amor de vocativo por aqui

somos não-nós
como há não-lugares
você não é minha ex
não somos nada em que caibam pronomes possessivos
ou primeiras do plural

somos não-alguma coisa
ausência

v a z i o

(e, por outro lado, do lado de dentro, me sinto tãaao CHEIA!)

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às vezes

a chuva batendo nas coisas

folhas de árvore
carros
no chão

pec pec pec
sssssshhhh

música instrumental que minha mãe botou pra tocar
brisa fresquinha me beijando os pés
passarinho passarinho passarinho

cheiro de serragem
é meu pai fazendo obra
tudo suspenso

um gostinho de inverno ou férias ou domingo na boca de mim
que outono
em plena primavera

às vezes

a vida.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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culpa por comer
culpa por não comer também
culpa por estar sozinha

mesmo sabendo que não é culpa minha
mesmo me sabendo em minha companhia

culpa por vc ter sumido
raiva também
mesmo sabendo que é cedo demais pra te exigir qualquer coisa
sempre será cedo demais pra exigir qualquer coisa de alguém

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eu me sinto livre. caralho! eu me sinto livre!

em meio a greve, falta de grana, montes de coisas pra fazer, mais montes ainda de desejos de vida e obvia ansiedade em decorrência disso tudo, eu não consigo parar de pensar no quanto estou mais livre sem você me pressionando pra viver. como agora eu só vivo.

também não consigo evitar lembrar daquela quadrinha do quintana que me persegue a todo fim de ciclo – “e agora, que desfecho, já nem penso mais em ti. mas será que nunca deixo de lembrar que te esqueci?”.

eu só fico pensando poxa, custava ter entendido minha necessidade de espaço e tempo? custava ter se mantido firme nas tuas próprias decisões de necessidade de espaço e tempo? custava nos sentirmos vivas lado a lado?

mas eu sei. e nem preciso ir tão fundo pra saber. que

custava.

porque aí não era eu, aí não era você.

finalmente agora a gente pode ser. cada uma.

 

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não é admitir que acabou que é difícil. é decidir que acabou. amor não é coisa que acaba assim, feito a água de um copo. nem com tapa na cara amor acaba como o que evapora ou é sorvido.

a decisão sim, por ser uma morte, e que pode ser dolorosa. porque da morte ninguém volta o mesmo (se é que alguém volta).

mas uma morte é sempre abertura de espaço pra uma nova vida. o fim do mundo é sempre abertura para o nascimento de um novo. algumas mortes são necessárias, simplesmente. o sol brilha aqui dentro e eu já sou incandescente outra vez.