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hoje fez um calor imenso e
saí frustrada do trabalho e
preguiças chatinhas às vezes se alojam

mas

me lembrei
(e frequentemente nos esquecemos)
do azul estridente por trás do calor
de toda a ansiedade que se desinstalou de mim
que estou tendo apetite e saúde
que estou me trabalhando e que isso não tem preço

olhar pra trás
às vezes
é olhar pra dentro
e sorrir

eu entendi que não quero mudar meu cabelo pra mostrar pro mundo que oficializei uma mudança interna. não é que eu tenha mudado por dentro. eu sou a mesma, só que agora me vejo com mais nitidez.

eu não preciso mudar o cabelo. não preciso mudar nada em mim.

não preciso mudar de casa, de espaço, de corpo.

não preciso que você entenda.

não preciso que você demonstre, que você reaja, que você suma, que você nada de nenhuma de vocês.

eu sou aqui e agora. híbrida. forte. inteira. total.

e tudo bem se eu quiser mudar o cabelo ainda assim. porque serei eu.

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Este texto pegajoso não é sobre você

Minha vaidade se chateia por você não me amar mais. Por cada sinal tão claro disso que eu não quis perceber e que você não admitiu até o último segundo tentando me segurar. É que eu não sou vento, só me movo com ele, como pétala que se desprende da flor. Por isso fiquei, até o último segundo, acreditando estar dando tudo de mim por um amor que possivelmente dentro de mim também já havia morrido ou estava pra morrer. Do que é que eu posso te culpar, então, se teus erros eu também cometi? E por que é que preciso te culpar? Por que é preciso sentir que estou certa ou que saí ganhando, de algum modo, ainda que seja me encaixando no lugar da vítima?

Eu não vou mais negar minha sombra mas também não vou chafurdar nas idiossincrasias um dia nossas em nome de um texto pretensamente literário. O que boia em mim nesse momento não são belas figuras de linguagem. É uma saudade triste que parece sem ser fim de saber o que fazer com os meus dias. E eu acho até que tenho levado muito bem. Minha competição maior é comigo e eu já cresci de mim em comparação a 2 relacionamentos atrás. Me alcança, realmente, outra perspectiva de vida. Não olho pra vocês como quem olha páginas viradas. Estamos todas orbitando na mesma teia. Sei disso. Também sei das páginas que virão, pela fé que deposito em mim mesma, mapas natais e providência divina.

Eu sei que tudo é metáfora. Eu sei, eu sei. De teoria vou bem. E até que na prática tenho ido melhor do que pensei um dia. Mas por dentro a vaidade ainda pesa. Eu ainda me ausento de mim. Interrompo meditações para choradinhas, escrivinhações e análises sobre a vida pretensamente conclusivas.

É me identificar com os poemas da Rupi Kaur e não querer explicar nada pra ninguém, mas ao mesmo tempo esperar que todo mundo já tenha entendido (e concordado) com meu ponto de vista. É como quando segurei a Helena no colo pela primeira vez e logo a entreguei pra alguém, por não saber o que fazer com aquele corpo. Só que, dessa vez, não sei o que fazer com o meu.

Estou lúcida. Sei de tudo. Sei do vento, o farfalhar das folhas, a poesia. Sons de família no café da manhã deste domingo, a um lado meu dorme a gata e, do outro, repousa um cravo branco seco. Eu sei. É lindo e pulsa, eu sei. Mas o tododia é árduo. Continuo comigo mesma no colo olhando pros lados esperando a primeira pessoa em quem eu possa me derramar por não ter ideia do que eu mesma devo fazer comigo. E por não saber, sequer ando para procurar. Andar pra onde?

Em meu coração há um farol (ou um moinho?) que aponta não sei pra qual direção e o resto em volta é tudo mar. O corpo na água parece mais leve, mas a gente sabe que o peso é o mesmo. O esforço parece menor que em terra firme, mas o cansaço que vem depois é gigantesco. A força necessária pra se mover é descomunal.

O samba entra pela porta aberta como um convite à outras formas de saber. E eu vou. Mas não é por saber por onde, não. Eu vou a esmo.

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às vezes eu tento me enxergar como outra fora de mim pra conseguir me olhar com olhos de terceiros (porque me amar por mim mesma ta difícil).

e eu me vejo. me vejo forte, me vejo bonita, me vejo capaz. mas não me sinto assim. sabe?

e acho que é aí que mora a diferença. eu não posso me amar como uma outra pessoa me amaria porque esse amor que vem de fora nunca vai chegar tão fundo quanto eu sou.

talvez a gente nunca consiga amar alguém por inteiro porque isso significaria abrir mão de si, o que por sua vez significa que lá no fundo a gente sabe que é só amor a si que a gente deve. que o amor pelos outros vem por consequência, quando a gente transborda de amores por si mesmo.

me sinto, nesse mar, a própria isca, o próprio anzol e o próprio peixe. ao mesmo tempo. como numa santíssima trindade, só que regida pelo sol.

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memória

o foda é que eu nem lembro mais

você dentro de mim
seu corpo
sua voz

já estou começando a me esquecer
só não posso pensar muito que me lembro
mas se não penso
já estou começando a me esquecer

e seus defeitos facilmente sobressaem

não, não,
não estou tentando me convencer de nada
já to mais que convencida
e nem precisei me dar ao trabalho,
você fez tudo sozinha,
obrigada

a questão aqui é só minha, pode ir embora
tenho só pensado no que é que fica
em como a memória trai a gente
nos motivos que você deve listar diariamente pra se convencer que está feliz
eu sei, eu faço isso também

é tão esquisito, né?
escrevendo assim, como se fosse pra você, eu quase consigo querer tua amizade de volta na minha vida

mas é quase
é só quase, mesmo

quanto de você eu inventei?
quanto de nós mesmas nós somos com o outro?
até que ponto é possível ser autêntica consigo?
às vezes me afasto tanto de quem você era (ou quem eu achava que era) que nem consigo entender como pudemos estar juntas

especialmente depois que a eletricidade acabou
já faz um tempão, lembra?

é tão estranho.
nena agora é uma palavra estranha. eu nem sei mais falar.
desaprendi.

nos desaprendemos.

às favas com “não, meu doce amor, eu nunca te amei”
foi-se embora como os pufes da Cultura

eu te amei, sim
te amei pra caralho
só não tem mais doce amor de vocativo por aqui

somos não-nós
como há não-lugares
você não é minha ex
não somos nada em que caibam pronomes possessivos
ou primeiras do plural

somos não-alguma coisa
ausência

v a z i o

(e, por outro lado, do lado de dentro, me sinto tãaao CHEIA!)

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às vezes

a chuva batendo nas coisas

folhas de árvore
carros
no chão

pec pec pec
sssssshhhh

música instrumental que minha mãe botou pra tocar
brisa fresquinha me beijando os pés
passarinho passarinho passarinho

cheiro de serragem
é meu pai fazendo obra
tudo suspenso

um gostinho de inverno ou férias ou domingo na boca de mim
que outono
em plena primavera

às vezes

a vida.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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culpa por comer
culpa por não comer também
culpa por estar sozinha

mesmo sabendo que não é culpa minha
mesmo me sabendo em minha companhia

culpa por vc ter sumido
raiva também
mesmo sabendo que é cedo demais pra te exigir qualquer coisa
sempre será cedo demais pra exigir qualquer coisa de alguém