a revolução não será escolarizada – [pensamentos de uma professora em formação]

É difícil encontrar meios de tornar a educação menos opressora quando se tem de submeter às estruturas clássicas (falidas e enferrujadas) da instituição escola. É difícil encontrar brechas lúdicas e desenvolvedoras de autonomia quando há que se fazer provas que treinem os alunos para o exame vestibular de algum dia.

Estive pensando: e se mandamos as “provas” para os alunos pesquisarem em casa as respostas da questões? E se, ao invés de entregar as questões por escrito (evitando cópias prováveis, porque aluno aprendeu a sair pela tangente desse sistema imbecil, e não nos culpo por isso), fazemos cada um responder as questões em sala? Transformar as questões em debate! Por que não? Linguagem é isso, senhoras e senhores!

Me lembro que no meu Ensino Médio, além das provas mensais de cada “disciplina” (ah, como eu detesto esse sentido dessa palavra!), tínhamos de fazer também alguns simulados – provas de estrutura semelhante às dos vestibulares do Rio de Janeiro, e às detestáveis provas do ENEM -, com tempo marcado, cartão de resposta, e essas coisas todas. Acho isso válido pois o mundo é como está agora, e não adianta fazermos os alunos perceberem o quão erradas as coisas estão, senão ensina-los a pensar maneiras de melhorar.

Entretanto, como disse uma amiga minha sobre as aulas de um grande professor de filosofia da educação, “aprendi a abrir os olhos pra viver dentro de uma sociedade que quer manter seus olhos fechados”. Também não adianta sair por aí gritando construtivismos, porque o mundo é como está agora, e não é suficiente. É lindo ler Sociedade sem Escolas, e pensar em gambiarras para por em prática enquanto não chegamos no nível “suficiente” (leia-se: justo, igualitário, bom, horizontal), mas também é preciso viver. E é preciso ensinar a viver no mundo como ele é, já que ninguém morto “construtiviza” alguma coisa. Para muitos, o vestibular é – como foi pra mim – o passaporte para o que se chama de vida. Logo, é preciso treina-los para o vestibular. Sin embargo, não dá pra simplesmente ‘se acomodar com o que incomoda’. 😉

(Queria falar de tanta coisa…. De cota. De uniforme. Das grades nas escolas municipais – são crianças, meu deus! Aaaaah!)

photo
via: Olhe os muros

É tentador sonhar em revolucionar a educação só com a minha boa vontade, mas é muito pouco produtivo. Por isso, andei pensando sobre como poderia melhorar as aulas do Licom, já que esta é a realidade de sala de aula que eu tenho hoje, e do alto da minha experiência de graduanda, aprendiz, filhote de Uerj, defini um esquema básico de exercício das quatro destrezas – fala, escuta, leitura e escrita -, dividindo-as pelos ambientes sala de aula e casa.

Oras, a sala de aula é o momento em que o aluno pode ter sua pronúncia e seu vocabulário guiados pelas observações da professora. Principalmente nos casos dos meus lindinhos, que só têm aula comigo aos sábados, esse é um momento precioso. É o único momento da semana em que eles vão estar em um espaço onde todos falam e pensam em/no espanhol. Portanto, a destreza da fala será priorizada no espaço de sala de aula. Em seguida, acredito que deva-se também dar grande atenção à leitura, e não só por correções/observações sobre a pronunciação, mas também por estímulo debate sobre textos argumentativos. Ninguém além de mim, que eu saiba, expressa suas opiniões sobre polêmicas em língua estrangeira sozinho em casa. Essa leitura relacionada à fala também merece espaço en clase. Quanto à escuta, os alunos já a exercitam por tabela quando me ouvem falando – sempre em espanhol -, e quando ouvem-se uns aos outros. Sin embargo, claro que nada me impede de levar músicas que ilustrem determinado tópico do conteúdo e tornem a aula mais descontraída, além de vídeos, para acostuma-los às variantes espalhadas pelo mundo, à velocidade real com que se fala, às gírias e expressões, etc. Cabem aí exercícios de rellenar huecos ou coisas do tipo, embora isso também possa ser feito em casa, para otimizar tempo de aula. A escrita não será priorizada em sala, visto que é um exercício individual e realiza-lo em casa, além de deixar mais tempo livre para exercitar outras destrezas, permite que o aluno tenha seu momento de pesquisa de vocabulário, concentração, organização e tempo. Eventualmente, entretanto, podem ser realizados breves exercícios de fixação de estruturas usando a escrita como apoio, além da escritura de pequenos parágrafos, a fim de desenvolver a escrita improvisada, sem consulta/pesquisa e com tempo limite definido por fatores alheios à autonomia/vontade do aluno – língua é improviso, afinal.

À casa fica a responsabilidade de realização de exercícios mais gramatiqueiros e estruturais, que veiculam a fixação do conteúdo, mas que não são tão bem vindos ao espaço da sala de aula, que almeja ser um espaço de diálogo, sobretudo. É prioritária, também, a escritura de textos maiores e mais bem estruturados – introdução, desenvolvimento, conclusão. Depois desta destreza, cabe também ao aluno exercitar em casa, a partir das indicações do professor, a escuta e a leitura. Como o objetivo do exercício destas destrezas em casa se difere do realizado em sala, a abordagem também deverá se diferir. No que tange à escuta, pode ser interessante pedir a transcrição de vídeos curtos de momentos reais (ou verossímeis) de fala, bem como sugerir filmes (sem legendas ou com legendas em espanhol) e músicas (sem letra ou com letra em espanhol), e retomar a temática assistida/escutada na aula seguinte. Também a leitura de textos narrativos/literários pré-estabelecidos pode ser sugerida e retomada na aula seguinte, servindo de gancho entre uma aula e outra. A fala em E/LE não se realiza em casa: a sala de aula é brindada com o exercício desta destreza. ❤

Em suma, ficamos assim:

Sala de aula – palavra-chave: troca.

  1. Habla
  2. Lectura
  3. Escucha
  4. Escrita

Casa – palavra-chave: fixação.

  1. Escrita
  2. Escucha y lectura

Agora o dever chama. Vamo lá ler ficção feminista de escritora nicaraguense e pensar num trabalho lindo pra fazer com a turma. ❤

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2 comentários Adicione o seu

  1. Erica Ferro disse:

    Primeiro, deixa eu te dizer que achei MARAVILHOSO o nome desse teu blog novo. Artezanni é, simplesmente, perfeito! Amei!
    Segundo, também estava com saudades de ti, moça dos cabelos bonitos!
    Terceiro, quero dizer que o seu plano de “sacudir” o espaço escolar no qual trabalha me parece muito bom.
    Quarto, você já me parece uma ótima professora e tenho certeza que, formada, será ainda melhor.

    Avante!
    Um abraço!

    Blog || FanPage

    Curtido por 1 pessoa

  2. Parece que não foi apenas de lugar que as coisas mudaram, não?
    Os temas que você decidiu abordar usando a sua vida como pano de fundo ficaram ainda mais agradáveis que seu blog anterior.

    Essa ideia de deixar que os alunos busquem a resposta valend0-se de debates em sala de aula me parece coerente e, quem sabe, eficaz. Falar ajuda a pensar. E andamos falando e pensando cada vez menos.

    Parabéns!

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