O diabo veste trapos

Tive umas ideias pra crônicas bacanas, fiz uns posts legais sobre filmes cults ou sobre pol3mik4s da vida, mas desisti de me enganar: não quero opinar. Quero desabafar, e só. Não quero falar de A Viagem de Yonai, embora seja um ótimo filme, mas sim de O Diabo veste Prada (que é também um ótimo filme, à sua maneira).

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
(F. Pessoa – Álvaro de Campos).

Certamente não, querido Álvaro.

Sabe, tentei organizar minha rotina em grades tão mas tão mas tão bem organizadas que me perdi de mim. E acabei não fazendo nada, nem sequer o que já fazia antes de tentar me organizar tanto – que, como fui descobrir, era suficiente pra levar a vida de uma maneira fluida.

Tive alguns problemas essa semana e minha garganta sentiu, as usual. Infecção. Fui parar no hospital, tomei soro, a porra toda. O que acontece é que essa minha velha mania de ser perfeita sempre me leva pro avesso da perfeição e a vida volta a me ensinar a mesma lição de sempre. E então eu aprendo e me reergo e vivo a vida até esquecer e ter de aprender de novo.

A depressão é uma doença séria. Ela come sua vivacidade e te aprisiona numa teia de pensamentos que te puxam cada vez mais pra baixo. É perigosíssimo, e tão letal quanto silenciosa. E uno não precisa estar pra se jogar do abismo pra estar em depressão. Não devia precisar também chegar nesse extremo para que sua doença fosse encarada como doença.

Não me amarro em qualquer caixinha religiosa: gosto de transitar por várias. E não acredito em demônios propriamente ditos, mas sim em influências energéticas exteriores capazes de alterarem nosso estado psíquico e físico. Não há forças para melhorar sua aparência, tomar um banho, lavar o rosto, que seja. É terrível. Você se torna uma versão rota de você mesmo. Um trapinho. Segundo creio, como numa doença física, um mal espiritual se instala em nosso campo áureo com mais facilidade se nossa imunidade está baixa. É preciso estar suscetível para sucumbir. E eu estive. Estou.

O Diabo veste Prada é um filme que me desagrada de muitas maneiras. A indústria cinematográfica é inteligente o suficiente para seduzir o espectador justamente para o lado que o filme parece criticar: o abuso de poder, o vale tudo, a falta de caráter. É um filme que fala sobre lidar com as cobranças dos diferentes âmbitos da vida. Como li certa vez, sobre a diferença entre viver uma vida equilibrada e fazer equilibrismo. Andy se submete à uma chefe escrota (e profundamente infeliz na sua vida pessoal) em um emprego que não é o que ama pelo peso que trabalhar com Miranda poderá ter no seu currículo. E isso não é errado, isso é investimento. O problema é submeter namoro e amizades, que eram importantes pra ela, a essa situação. Quis ver o filme ontem por causa da cena em que o Nigel diz “você não está tentando: está se lamentando”. Meu contexto é diferente: passo muito tempo fora de casa, e minha família cobra presença, minha namorada cobra presença, e isso não é errado. Eu cobro, também. Faz parte, ninguém se relaciona ausente. O problema é que muitas das coisas que faço, como o grupo de estudos de Dom Quixote, faço porque acho que deveria fazer; que em algum momento aquela experiência vai se validar na minha vida, seja pessoal ou profissional. E aí mora o perigo, porque o quereres inicial se perde.

Ontem me lembrei das palavras que minha antiga terapeuta me disse ano passado, quando fui diagnosticada num quadro de depressão. Me livrei da letargia sem remédio nem psiquiatra, mas a terapia foi fundamental pra mim. E a terapeuta disse: “seja gentil com você“. Quer dizer, não adianta correr pra fazer mil coisas do jeito certo quando sua vontade real é nem sair da cama.

Ontem, dar o melhor de mim foi: ler umas poucas pagininhas do livro do Licom, fazer meia hora de esteira assistindo esse filme, pintar minha unha de vermelho, chorar quando deu vontade, ficar na sala com os meus pais, bater papo no wpp com o meu amor. 🙂 Não fui capaz de fazer nada além disso, entende? Estava além de mim. E quer saber? O mundo não ruiu pelo que deixei de fazer. Ainda cedo me deitei e dormi por dez horas, como se tivesse em mim o cansaço físico e de um dia inteiro de desgastes.

A primeira coisa que  deveriam dizer nesses programas de getting things done e coisas do gênero é: não hesite em jogar tudo pro alto se essa for a única possibilidade que seu estado de ânimo permite. O mundo nem sua vida vão acabar por causa disso. Em outras palavras, seja gentil com você. 😀 E é o que farei hoje. É este o meu desejo da semana.

E quanto a minha auto crítica dizendo que o blog devia seguir por outros vieses, deixo meu mais sincero foda-se. ❤

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. Não sei qual seu momento agora, mas meu momento atual está em sincronia com esse texto. Tive ideia para posts, escrevi titulos, até me forcei a escrever sobre um livro que estou lendo…. Mas não é bem minha vontade…. eu não quero opinar, eu quero desabafaaaarrr…

    Estou cansada de fazer equilibrismo… e olha que gosto da minha profissão. Ensino de História foi o que escolhi e Educação Infantil é minha paixão, mas as vezes a vida pesaaaaaaaaa… e o flerte com a depressão paira a porta… me nego a ceder, procuro caminhos… as vezes o encontro…

    Também não gosto do filme “O diabo veste Prada”… Sua terapeuta me lembrou meu primo, ele me disse exatamente isso há um tempo atrás “Seja gentil com você!”. E quanto a jogar tudo para o alto… é o que estou fazendo agora… quer saber? Está sendo TERAPÊUTICO que bom que você tomou a decisão de escrever esse texto e não outro.

    P.S.: Estou lendo Dom Quixote há quase dois anos, não consigo lidar com a forma debochada que o Cervantes conta a história do Dom… Ele não tem empatia com aquele homem que trata gente como gente, mesmo quando as pessoas não se vem como tal, mas eu tenho e me desespero.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s