Somatizações e resiliência

No começo da semana eu estava chata. Cabisbaixa, tristinha, reclamona, chata. Meu domingo foi ruim, passei o feriado doente, não via perspectiva em nada, estava chata. Não tem outra palavra: chata. Aí quarta feira, sabe lá deus porque, acordei numa iluminação só, super paciente zen budista lendo Osho dizendo om mani padme hum a cada obstáculo, como se fosse a coisa mais natural do mundo pra mim. E, é claro, comecei a fazer minhas metaforinhas metafísicas literariamente pretensiosas (em segredo).

Lembrei da aula de avaliação da aprendizagem, quando um cara da Física falou que, pra ele, a raiz da dificuldade dos alunos está na falta de aplicação prática daqueles tópicos na vida cotidiana. Nos enchem de fórmulas, e aí? O que esperam que eu faça com esses delta, ômega e o cacete a quatro? Não lembro de mais nada.

A primeira coisa que eu fazia quando recebia uma prova de física, ou disciplina afim, era anotar no cantinho da página todas as fórmulas que eu sabia, enquanto ainda tava “fresco” na memória, pra não correr o risco de esquecer. Dica da mamãe.

E era de fato uma ótima estratégia, porque quando você ta acostumado com a lógica daquele exercício você sabe exatamente o que fazer com a fórmula e pronto, problema resolvido. Acontece que eu não entendia o raciocínio daquele troço. Porque não era do meu gosto, porque não tinha aptidão, por preguiça, por dificuldade… O fato é que não era algo corriqueiro na minha vida.

Por volta dos 5 anos fui alfabetizada. Me disseram que em cima do “a” que sai do nariz a gente bota uma cobrinha chamada til, e há 16 anos eu venho acentuando corretamente pães, mãos e canções. Isso não é um mistério pra mim. O uso do til é uma verdade óbvia pra mim, é um hábito registrado pelo meu cérebro, é uma ação involuntária. Mas o cálculo da força ou da velocidade ou do que quer que seja, numa superfície plana ideal, desprezando o atrito e considerando tal valor pra gravidade não era óbvio pra mim. E as fórmulas ficavam lá, reinando absolutas na minha pobre provinha que diversas vezes voltava em branco para as mãos do professor.

E metáfora de boteco, mas vá lá: fórmula não adianta de nada se você não souber aplicar. Óbvio, não? Beleza, transfere pra vida: recentemente tentei me enquadrar em PDCAs e listinhas e apps lindos que deveriam me organizar e fazer com que eu sentisse que administro bem meu tempo, que sou alguém realizada, e acabou que eu fiquei… infeliz. Não só não fiz tudo o que gostaria de fazer como acabei deixando pra lá também aquilo que antes eu vinha conseguindo dar conta.

Enquanto me recuperava de uma infecção na garganta, obviamente psicossomática, uma aluna que andou sumida me disse que procurou seu médico após um desmaio, e foi aconselhada a parar tudo o que a estressasse antes que sucumbisse de desgaste. E então, gente, o que nós estamos fazendo? A que se refere realizar sonhos e cumprir metas senão ser feliz? Que é ser feliz senão ter qualidade de vida? Que é qualidade de vida se desmaiamos por aí? Foi aí que parei. Parei de tentar encaixar minha rotina nos quadrinhos e listinhas que desenho pra ter a vida perfeita desde já, pensando nos próximos 30 anos. Parei de corrigir prova, parei de ler capítulos de coisas que não me interessavam e fui fazer carinho em quem amo. Fui fazer carinho em mim.

Tenho plena consciência de que ainda vou desaprender essa lição várias vezes, pra reaprender de novo e outra vez, mas trago agora a intuição de que é isso o que a vida é, em essência. E vamos lá, é assim pra todo mundo, então, me sentindo confortável para tal, arregaço as mangas e vou à vida. Até enfraquecer pra me resguardar e fortalecer de novo. Não tem fórmula: é exercício. A gente fala mal de “decoreba” mas “decorar” tem raiz em “saber de coração” (pelo menos segundo o Azeredo numa aula de LP IV). Tem que exercitar muito até paz de espírito ser tão óbvia ao coração quanto o uso do til.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Eu estou nesse exato estado de espirito que você narrou no incio do texto: “chata, cabisbaixa, tristinha, reclamona…” fim de semestre, tantos desafios com alunos e a escola ainda enche o saco com cadernetas e razuras… aiiiiiiiiiii…

    Quando bate esse desanimo o melhor para mim é mudar o foco, fazer algo estimulante e ca estou…

    Concordo com o “cara de física”, e dou a esse fenomeno que ele observou o nome de “falta de empatia” nossas crianças não tem uma relação empatica com o conteúdo escolar e assim não conseguem fazer pontes entre eles e sua vida cotidiana. Minha primeira batalha como professora de história é construir um vinculo empatico entre meus alunos e história – nem sempre consigo, mas quando consigo – o negocio vai… kkk

    Também anotava as formulas no canto do meu caderno e me pego perguntando do que serviu a decoreba a aplicação passou por cima e não se fixou em mim…

    Hoje alguém me perguntou porque não segui carrereira acadêmica após o mestrado… Ai chegou aqui e vejo esse texto lindo e você faz essa construção toda e no meio do caminho questiona… ora ” A que se refere realizar sonhos e cumprir metas senão ser feliz?” Eu não era feliz… Eu não era feliz na acadêmia… sou feliz na sala de aula, mesmo com todos os problemas… e percebo que fiz a coisa certa deixando as cadernetas para lá também, elas não vão sair correndo… quando eu terminar de explorar aqui ainda vão está lá… Mas eu vou está mais tranquila para encara-las… depois desse momento.

    Aliás, que desfecho lindo o desse post… realmente viver não tem fórmula: é exercício… e eu reencontro aqui a minha resiliência.

    Obrigada!

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