Publicado em carta, Querido diário

Carta a um amor irritadinho

Deixa eu te explicar umas coisinhas: final de período não é brincadeira, sobretudo quando se leva a faculdade a sério. E não me venha com vestibulares! Sou leonina e estou falando de mim. De mim pra você.

Eu amo o que estudo, escolhi estudar por vocação, e não me conformo com a superficialidade com a qual os temas são abordados na graduação, e menos ainda com o tempo quase nulo que eu tenho de aprofundar no que mais me interessa, por conta própria. E aí o que se dá é que ficamos todos brincando de aprender língua e literatura, só pra termos, num tempo hábil pra ingressar no mercado, um diploma que nos dê respaldo pra dizer “sou formada em Letras!”, como fosse garantia de real apreensão de conteúdo e boa atuação profissional.

Sei que minha ansiedade não tem a ver com a quantidade de compromissos que tenho hoje – e olha que abandonei um bocado. Teve tempo de cursar cinco matérias, e minha angústia era a mesmíssima de hoje, justamente porque gosto de fazer as coisas todas com paixão, dedicação, profundidade, e tudo isso demanda tempo. Não sei se é saudosismo, mas me lembro de poucos períodos da minha vida terem tido tanta superficialidade acadêmica. Hoje sou a aluna que nunca pensei que seria, na Letras. Hoje sou a aluna que passou raspando do 2º pro 3º ano do Ensino Médio, depois de já ter repetido aquela série. Isso não tem a ver com minhas notas. Minhas notas vão muito bem, obrigada. E vão bem porque me dilacero, seja de véspera, seja de madrugada, mas sempre encontro um jeito que não seja abandonar a matéria nem mendigar ponto com professor. Não se trata de C.R, se trata de apreensão superficial ou aprofundada do que me interessa.

Fazer trabalhos na véspera? Dois livros pra ler e resenhar em uma semana? Deixar tudo pra última hora? Que absurdo, Luísa. O que aconteceu com a caloura que morava aí? O brilho no olho por estudar o que estudo, hoje, mais oscila que se faz presente. E isso é triste, muito triste. Como se a Paixão pertencesse ao mundo da infância, e hoje me acompanhasse, qual fantasma, resignada ao relógio tiquetaqueando sem perdão. É certo que a complexidade dos conteúdos vai aumentando com o progredir dos períodos, o que me parece tremendamente injusto, porque isso ocorre à medida que envelhecemos. E sei que pode parecer ridículo falar de cansaço aos 21, mas realmente me sinto muito menos disposta do que há alguns anos.

Nunca mais fiz uma canção, um poema, um hai kai, que fosse! Nunca mais dancei, nunca mais fiz teatro, nunca mais quis teatro e até hoje o motivo dessa não-saudade é um completo mistério pra mim. Estou num momento da minha vida em que não tenho a menor ideia do que pretendo fazer com a minha vida. E isso é bem ruim, porque a vida não para pra nos entendermos. Ou pra entendermos como se vive.

A verdade é que eu não sei viver. Vivo cambaleando entre uma e outra fórmula de organização e felicidade, mas até hoje – e são 21 anos de tentativa e erro! – nenhuma me assegurou completamente. Óbvio que sei que não há fórmulas, embora as deseje mais que tudo, por vezes.

Outra verdade é que, meu deus, como você me irrita! Eu gostaria de dizer todas essas coisas mas digo uma única frase que não é nenhuma destas e pimba, já estamos brigando, pateticamente, via whatsapp. Mais uma verdade ainda é que sou ridícula demais, e tudo o que sei sobre a minha vida nesse momento é que queria o teu colinho, um raio que congelasse o tempo, meus discos e livros e nada mais.

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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