Publicado em Querido diário

mãe, pai,

Eu sei que talvez essa seja mais uma evidência da minha tendência um tanto quanto covarde de evitar conflitos a todo custo, mas a verdade é que se não fizer isso agora vou implodir.

Mãe, ontem você falou que eu pareço ter uma raiva acumulada de muitas coisas, e acredito que em parte seja isso, mesmo. Queria que você acreditasse em mim quando digo que minha razão para querer sair de casa não é “querer me ver livre de vocês”, como você disse ter sentido. Tudo o que eu não queria era que vocês se sentissem descartáveis, porque não são, mas, como sempre, as coisas se desenrolaram de um jeito com o qual não soubemos lidar. Quero me sentir livre das amarras que eu mesma impus à mim em 21 anos e isso não necessariamente tem a ver com vocês. Não completamente, pelo menos. Mas seria mentira se dissesse que não penso nisso há tempos e que nossos conflitos são, sim, um forte estímulo para que eu tomasse essa decisão. Em parte, encaro isso como uma grande experiência e, quando penso no assunto deixando de lado toda a confusão que gerou, me sinto em paz e sinto no meu coração que é a coisa certa a se fazer nesse momento.

Só não era pra ter sido desse jeito. Aliás, há muitos anos que não era pra ter sido desse jeito. Era pra termos tido muito menos dor e muito mais convívio, e todas as vezes em que eu tentei me movimentar nesse sentido tive a impressão de que estava todo mundo separado, alheio, distante. Você diz que sempre me procurou sem que eu correspondesse, e é verdade, mas como eu poderia me abrir sabendo que seria julgada? Como, já tendo sido julgada antes? Como, se eu nem conseguia entender como e porque minha cabeça funcionava de um jeito tão estranho? Você sempre deixou bem claro que eu deveria respeitar os limites dos outros já que exigia que respeitassem os meus, mas sempre tive a sensação de que a sua opinião pré-estabelecida era mais forte do que qualquer apelo meu por compreensão e condescendência.

Me abri tantas e tantas vezes, por carta ou até mesmo falando, mesmo que isso me custasse muito e me fizesse chorar, sobre tantos milhões de coisas e sempre depositei tanta esperança de que as coisas melhorassem pra que no final das contas tudo aquilo se transformasse em mais e mais conflitos que, sinceramente, olhando daqui, me fazem entender perfeitamente porque fui me fechando cada vez mais dentro de mim e do meu quarto ou “escapando” para fora de casa. Quantas vezes me senti burra por falar a verdade sobre onde e com quem estava tendo a certeza de que se mentisse teríamos sofrido muito menos… Como me abrir mais do que me abri esses anos todos? Como, se você acha que esse tipo de conflito é absolutamente normal?

Tive conflitos internos muito sérios e vocês me ajudaram a sair de alguns. A anorexia e coisas do gênero são  um reflexo claro do quanto eu sempre estive vulnerável à somatizações. Não me lembro de ter contado isso a vocês, mas no ano passado estive em depressão e, durante o processo de terapia com a Ana (que me diagnosticou) ela chegou a me perguntar se eu queria me consultar com uma psiquiatra. Pensei muito no assunto, mas acabei ficando bem só com a terapia, graças a deus. Foi brabo, mas deixou claro pra mim que eu não posso dar chance pra esse tipo de tendência. E eu realmente to sentindo necessidade de romper com tudo isso, e precisa ser agora. Na verdade, precisou ser há muito tempo… Sempre precisou ser, mas só agora eu sinto que posso.

Pai, detesto estar fazendo isso na véspera do seu aniversário, e é curioso, porque desde a surpresa que fizemos no aniversário da mamãe eu fico matutando o que poderia fazer ou dar pra você… Algo que você gostasse. E nunca chego a conclusão nenhuma. Sinto como se você gostasse tanto de agradar os outros que nem ligasse muito se alguém te dá um livro, uma roupa, um bolo ou um beijo. Nesse sentido, você é mais difícil de agradar do que a mamãe. É uma espécie de esfinge. Sei que somos muito parecidos, inclusive nisso. Tendemos a guardar o que sentimos e isso não é nada bom porque vamos acumulando raivas que nunca são sanadas.

Se não tivéssemos guardado tantas coisas durante esses anos todos, numa tentativa meio torta de ser diplomáticos, talvez eu não sentisse a necessidade que sinto agora de fazer essa “despedida” dramática e um tanto quanto ridícula. Espero que ocorra tudo bem no exame e que você se cuide de verdade. Sinceramente não sei se te faria mais bem ou mal me ver no seu aniversário, então a princípio só desejo de todo o coração que você tenha um dia muito feliz.

Vou dormir na casa da Claudia esta noite e ainda não pensei sobre o resto da semana. Começo a levar minhas coisas para a república na sexta feira e vou oficialmente pra lá a partir da semana que vem. Claro que ainda vou precisar de mais algumas coisas, e espero que em breve nós possamos nos ver pra ficarmos em paz de uma vez por todas. Peço desculpas pelo mau jeito.

Luísa

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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