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Eu devia, mas não sei.

Eu devia parar de me boicotar. Mas não sei como.

A gente se boicota todo dia, já de manhã, ao fazer todas aquelas não-coisas que a Marina Colasanti brilhantemente ressaltou. Particularmente, me boicoto toda vez que me esqueço do valor de suas palavras. Toda vez que acordo, como, ando, trabalho, paro, estudo e durmo no piloto-automático.

Uma saudade prévia da infância já se anunciava pra mim durante a própria infância. Uma tendência ultrarromântica precoce já ressoava aqui dentro, como alerta, e eu tinha a mais absoluta certeza, do alto dos meus seis anos, que jamais seria tão feliz quanto naquela época. Não podia estar mais certa.

É verdade que fiz jus à toda possibilidade de alegria naqueles tempos, e que durante muitos anos me senti uma estranha no ninho por resistir a sair da infância, mas ainda com certo orgulho por não ter cedido à loucura cotidiana do que sempre chamei de “mundo adulto”, com certo tom de desprezo e desejo de distanciamento eterno. Sem sequer ainda formar parte dele, já o adivinhava prosaico demais pra minha sede de poesia. Mas as regras do jogo estão lançadas, e os calendários e os relógios, e “lá no fundo está a morte, mas não tenha medo”. Permitimos que nos convençam que é justo o preço que se paga pela loucura à qual nos submetem(os).

É insano e preocupante, mas preciso dizer que entendi o egoísmo dessa gente. Entendi as limitações. Entendi o porquê de tanta felicidade quando chega sexta feira ou quando há um feriado ou quando o professor cancela a aula. E ter entendido me apavora, porque entendi ao sentir na pele, e não quero me acostumar a ser feliz por dois dias na semana.

O engarrafamento, a superlotação, o sono e você atrasados estressam. O preço da passagem estressa. E assim, é claro que tanto o frio quanto o calor são ruins. Nunca está bom. Não adianta frio se não tem grana pra comer fondue. Não adianta calor se não dá tempo de pegar uma praia. Não dá tempo de ver aquele vídeo sensacional, ouvir aquela música linda ou ler aquele livro incrível. Não dá tempo nem de ir ao teatro sábado porque você trabalhou tanto a semana inteira que te faltam forças e dinheiro pra sair.

O que me angustia é essa culpa que me cabe por ter a consciência de ter escolhido toda e cada coisa que forma meu cotidiano. Cursar a faculdade de Letras, dar aula do que eu amo, sair da casa dos pais.

Podia largar tudo e viver em qualquer comunidade alternativa, mas não fui. E duvido muito que vá um dia. Me assombra o medo de me tornar tudo aquilo que sempre critiquei e ainda achar bem bom ter um sábado e um domingo pra fingir que não estou preocupada, como manda o comportamento geral.

É, talvez eu mereça.

Me consola a certeza de que a eu que tomei coragem e fui de mala e cuia viver com os índios está, neste exato momento, saudosa até do cheiro de fuligem. Me consola perceber que a insatisfação nos paralisa ou move.

Me consola a possibilidade de encontrar poesia debaixo da poeira das coisas, depois de trabalhar duro e muito para deixa-las limpas, e de poder, quem sabe, mostrar essa poesia a alguém que talvez se sinta como eu.

Me transborda perceber que o exercício da escrita, apesar da ferrugem, ainda é capaz de melhorar meu humor, fazendo meu texto e meu dia ganharem novo rumo.

Só me resta dizer evoé.

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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