c.a.s.a

Quando criança, queria ser professora. Misturava meus ursinhos de pelúcia com as bonecas, pegava uns livros de contos de fada e dava aulas para a minha plateia. Passava tarefas. Tirava dúvidas. Ia de “mesa” em “mesa”.

Sempre tive, talvez por influência de meu pai, uma linha de pensamento bastante metódica e burocrática, a qual influencia meus sonhos desde a mais tenra idade. Desenhei diversas plantas baixas, sabia o nome e o slogan da escola que queria criar, um dia, perguntava aos meus pais os valores das contas para calcular a média do salário dos professores e da mensalidade cobrada por cada aluno. Devia ter, naquela época, algo em torno de oito anos.

Aos dezessete, após repetir o segundo ano do ensino médio por profunda preguiça, tédio e decepção com o sistema escolar (carinhosamente por mim apelidado de “classe de desalfabetização”), decidi ser professora. Nesse meio tempo, cogitei ser cantora, bailarina, jornalista e atriz. Mas o bichinho da docência já havia me mordido, e na hora do vestibular (apesar de todo o Baco), optei sem dó por Letras.

Nunca deixei de fazer plantas baixas, programar ementas, pensar em dinâmicas que poderiam ter tornado o meu próprio processo de escolarização mais divertido e útil, humanamente falando. Comecei a pensar sobre a função social das escolas. Comecei a ler sobre. José Pacheco, Viola Spolin, Piaget, Rubem Alves, Paulo Freire, Bourdieu, Foucault. Augusto Boal.

Eis que um dia me veio em mente a sigla “c.a.s.a”. Era o que uma escola deveria ser, na minha humilde opinião. Um espaço acolhedor, uma extensão do próprio lar, um terreno fértil para plantar-se famílias sem laços sanguíneos. Então busquei desde o mais fundo de mim as palavras que melhor compusessem essa sigla. Encontrei a ideia “centro de aprendizes a serviço do amor”. A partir daí, mais do que nunca desenhei plantas baixas, estipulei ementas e rotinas, … . Só deixei de calcular mensalidades: compreendi que uma educação desse porte só poderia ser pública, ou sua razão se perderia completamente.

Conheci e me orgulho de ter feito parte, ainda que por pouco tempo, deste lugar imaterial e itinerante deliciosamente denominado “ECOA”. Tive aulas maravilhosas e gratuitas de teatro sempre em espaços cedidos. Aprendi a fazer cadernos pelo preço do material, e só. Fui suficientemente convencida de que é possível construir um mundo melhor, passo a passo, pessoa por pessoa.

É certo que meus planos megalomaníacos e minhas plantas baixas dificilmente serão alcançadas à risca, ainda mais num futuro tão próximo, mas hoje, dezesseis de dezembro de dois mil e quinze, me veio a seguinte ideia: por que não juntar educadores – formados e em formação – às suas ideias comuns sobre fazer uma educação diversa da vigente para realizar esses planos, finalmente? Tirar-nos do armário, tirar nossos sonhos das gavetas, e pendurá-los num varal de poesia.

Não sei se já estou pronta pra isso, mas… Quem é que está pronto pra vida, até a hora da morte?

Somos capazes de grandes coisas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s