MPB empoderada

Eu tenho pensado que sorte nós, mulheres dessa geração, temos em estar vivendo esse momento histórico. É claro: a sociedade patriarcal e sua cultura pró-estupro ainda nos achatam diariamente. Mas aprendemos a obviedade linda que é não precisarmos nos calar diante de tanto lixo transformado em paradigma.

Tenho percebido que algumas músicas seguem essa linha corajosa e empoderada de raciocínio, e acaba propagando esse discurso tão bonito que o feminismo nos ensina a viver.

A primeira vez que pensei nisso foi ouvindo minha rádio favorita – MPBfm. Era uma voz que conhecia não sei daonde, até que o radialista deu os créditos: Paula Lima. Uma mulher cujo jeito de cantar, confesso, costumava me enjoar. Mas quando ouvi aquela música, não tive nem tempo de enjoar de qualquer coisa (mesmo porque ela cantou divinamente). Entitulada “Fiu Fiu”, a música tem uma estrofe assim:

Se o batom é forte,
se eu tenho porte,
se eu tenho dote,
se eu uso short,
se comporte:
isso não é com você.

Quer dizer… PAH!
Levo um tapa na cara cada vez que ouço. A música toda é um tapa na cara, aliás. Fala basicamente sobre caras que esperam “ganhar” as mulheres na base do “fiu fiu”, como ela literalmente canta, e sobre como esses caras tão errados nessa expectativa. Mas esses versos que citei são os mais fortes, na minha opinião.

Depois, ouvi o álbum novo da Clarice Falcão (que eu não consigo mais parar de ouvir e to só esperando o mês virar pra comprar o ingresso do show. e o cd. e a Clarice, se puder, também). Tirando 3 ou 4 músicas, o álbum fala, com a sonoridade de desenho animado+Vitor Jarra+batida dançante e com o humor ácido que ela já tinha mostrado no Monomania, sobre empoderamento feminino em VÁRIAS situações. Pretendo fazer um post só sobre esse álbum, qualquer dia. Tem MUITA coisa pra falar. Mas se eu pudesse resumir, resumiria nos versos da canção que intitula o álbum – “[Eu sou] problema meu”:

Eu nasci pessoa, gente,
eu não nasci coisa.
Eu não sou brinde de criança
nem presente de natal
Não me espere aí na sua estante
nem agora nem em três vezes
[sem juros
nem no seu
cheque especial
Não me leve a mal,
mas você não me tem

Pode até parecer que essa música se aplicaria a qualquer contexto de autoafirmação, machismos à parte. Mas ouvindo o conjunto do cd (e essa letra toda) você saca que se trata de uma mulher se impondo sobre um relacionamento em ruínas. Tudo sedimentado numa ironia que consegue ser sutil e descarada ao mesmo tempo. Não sei como essa mulher faz isso. Meu deus, eu adoro essa família Falcão (os pais dela são demais!).

Por último, mas não menos importante, uma criatura da minha idade conhecida por Manu Gavassi lançou recentemente um EP que ta sendo produzido pelo Júnior Lima e pelo baixista do Criolo, o que deu um super ultra mega up na sonoridade dela. Parece que ela terminou um namoro de 3 anos (andei vendo muitas entrevistas, to super entendida de Manu) e expôs todas as emoções dela em relação ao término no EP. Tem mágoa, tem raiva, tem superação, tem ironia e muito empoderamento, também. Fala de sororidade pra um público que talvez ainda não tenha se tocado que não precisa pelo pirralho da mesa ao lado, que a vida é beeeeeeeeem mais que isso. Um público que ainda não entendeu muito bem o que é o feminismo porque a prova de matemática e as capas de revista tiraram o foco. E cara, isso é TÃO importante! Fico pensando que, talvez, se eu tivesse um ídolo cantando essas coisas na época em que minha relação com meu corpo era completamente torta e eu tinha uma necessidade insana de me afirmar pro mundo (geralmente sem sucesso), eu teria chorado bem menos e comido bem mais, sem culpa.

Quero ver se faço um post sobre a Manu, também (que também não consigo mais parar de ouvir e ver entrevistas e ver snaps, chegando ao ponto de minha namorada não conseguir evitar ouvir e admitir que a guria evoluiu MUITO. obs: a Cal curte Muse e esse tipo de som. Vê-la admitir que Manu Gavassi ta fazendo um bom trabalho até me deixou surpresa. Nossa, que parêntese enorme). Além dessa questão do empoderamento que me chamou atenção, percebi também que meu problema com o pop é o fato dele ser cantado geralmente em inglês. Pop brasileiro é algo que falta no mercado e, na minha opinião, a Manu ta ocupando muito bem esse espaço.

Pra citar um único trecho do EP, escolho a primeira estrofe da música que intitula o trabalho – “Vício”:

Preciso ir tomar um pouco de ar
Me desculpe, eu já cansei de chorar
Eu até ficaria pra me humilhar,
mas nosso tempo já deu

Simples e direta, mas diz tanto…

Bom, agora tem umas 15 pessoas falando alto aqui do meu lado então ta difícil raciocinar. Vou encerrar por aqui.

p.s.: Nossa, quanto tempo faz que não faço um post com cara de post! Deve ter a ver com o fato de ter desativado o Facebook. A necessidade de registrar cabe no blog com direito a prolixidade. 🙂 Senti saudades.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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