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Se joga do penhasco, então.

– É por isso que esse país continua essa merda! Só tem robô! – disse o homem, enfurecido , em resposta à negação do motorista ao seu pedido de abrir a porta fora do ponto. – Na verdade – eu gostaria de ter dito – o país continuará “essa merda” enquanto corrupções cotidianas forem naturalizadas.

O 232 ao lado, parado no mesmo trânsito que o “nosso” 232, abriu um pouco antes do ponto e seus passageiros desceram.

– Se o ônibus aqui do lado abriu porque é que você não pode abrir? Ta tudo parado! Você é robô, por acaso? – A partir daí o homem desatou a falar. Quase grunhir, eu diria. O que para ele era um argumento muito convincente – a escolha de provocar o motorista chamando-o de “robô”, alguém que só cumpre regras – não me pareceu nada além de um grande paradoxo. “Se joga do penhasco”, insistiu o tal homem, valendo-se de um jargão frequentemente usado por mães e pais, que sugere que a adesão de muitas pessoas sobre determinada atitude não faz com que tal atitude seja correta ou aconselhável.

Se a maioria esmagadora de motoristas de ônibus lançasse o carro sobre um penhasco, todos deveriam aderir? Não, óbvio que não. E o que não aderissem estariam errados? Muito pelo contrário, seriam os únicos motoristas considerados sãos.

Se a maioria esmagadora de passageiros passasse a boicotar a passagem do ônibus e entrasse por trás, os que não boicotassem, por questões morais, ainda que achassem o preço da passagem absurdo, estariam errados?

Se nos são cobrados R$ 3,80 por viagem de ônibus e a maioria esmagadora da população não parece fazer nada no sentido de tentar reverter esse quadro, a minoria militante está errada?

Curiosamente, o homem usou a ideia do jargão para o fim oposto ao qual ele originalmente se refere. O motorista estava simplesmente fazendo o trabalho dele. O 232 para perto do McDonalds, e não perto do metrô. Todo mundo que pega aquele ônibus todo dia sabe disso, todo mundo que fica longe do seu destino sai mais cedo, contando com o tempo da caminhada até o local aonde realmente se quer chegar.

– Ta tudo parado! – insistia o homem, em vão – Custa alguma coisa? – Talvez não custasse. Talvez aquele motorista estivesse sendo filmado ou vigiado de alguma forma. Talvez, parando fora do ponto, o próprio salário do motorista ficasse comprometido. Ou talvez ele esteja só cumprindo as regras as quais o orientaram a cumprir. Regras que, descumpridas, talvez prejudiquem o motorista e talvez não. Mas que não são arbitrárias. Cada ônibus tem um trajeto e nenhum passageiro deveria se sentir no direito de criticar, provocar, ofender e agredir a um homem que está fazendo o trabalho pelo qual é pago para fazer.

O motorista não tem direito, por exemplo, de correr feito um louco, arriscando a vida dos passageiros. Não tem direito de alterar a rota do ônibus. Não tem direito de não parar nos pontos pré-determinados. Mas tem pleno direito de parar apenas nos pontos, meu caro senhor – eu deveria ter dito!

Se eu pudesse dar um conselho àquela criaturinha raivosa que foi capaz de forçar a porta do ônibus, acreditando fervorosamente que estava com toda a razão, eu diria:

– Querido, vai de uber.

 

 

 

 

 

 

 

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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