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ensaio sobre o caos – parte II

A verdade é que quando li Deleuze e Guattari, entendi foi nada. Rizoma, hã? Que diabo era aquilo, meu deus? Não fazia ideia. Lia, relia, sublinhava, jogava no Google, refletia bastante e… Nada. Mas alguma coisa no orientador da IC (meu queridinho de longa data) e aquela mulher da pós da UFF que eu quero ser quando crescer e em seus discursos e debates sobre equilíbrio metaestático e as subjetividades (assim mesmo, no plural) de cada um me faziam continuar indo ali quinzenalmente. “Aí tem coisa boa”, eu sabia, mesmo sem entender racionalmente o que era aquela força que me atraía tanto.

Meses depois puxei  a última eletiva de que precisava, literatura africana em língua francesa. Apesar de não ter qualquer origem afro ou qualquer conhecimento minimamente profundo por língua francesa, foi a ementa que mais me interessou dentre as eletivas que cabiam na minha grade de horários do semestre.

Ocupação estudantil vai, indicativo de greve vem, e acabamos por não usar os textos do Glissant em nenhuma avaliação. Mas eu li um por um, e o que me deu foi mais que catarse, foi quase um orgasmo, foi tipo nirvana. O cara simplesmente pegava o conceito de rizoma e aplicava na produção literária que vinha surgindo nos países que haviam sido colonizados anos e anos e anos atrás. Pela primeira vez as palavras de Deleuze e Guattari fizeram algum sentido para mim racionalmente, depois de tanto tempo me fazendo “só” sentir. Alcancei a proeza de identificar o tal conceito antes mesmo de o autor explicitar que tirou sua ideia de culturas atávicas e compósitas justamente dali, do Mil Platôs. E foi bem mágico. Eu achava que aquilo ali já tinha sido suficientemente absorvido por mim, e que ia ficar aqui dentro ressoando por si só.

Mas a entropia não é boba, né? E ontem ela me levou a um mergulho na ilustração viva do que é, afinal, essa ideia de rizoma.  Quando todos os corpos viraram um só; quando me vi na roupa de outra pessoa com o suor de uma terceira pessoa; quando vi minha roupa a perder de vista em uns três ou quatro desconhecidos diferentes; quando me despi da necessidade de ser lógica, de ser interessante, de ter início meio e fim; quando fui só corpo, quando fui só voz; quando fui a voz do outro; quando fui cidade; quando disse sim, quando dei o meu melhor; quando me despi do medo do ridículo; quando comi frutas secas; quando tudo o que foi feito e dito naquela sala até então desconhecida, por e com pessoas até então desconhecidas, fez sentir, mergulhei no caos. Sem qualquer pretensão de esgotá-lo (pois isso seria esgotar a mim) em profundidade, com toda a pretensão de me ramificar pela superfície de todas as coisas interessantes, mergulhando vez ou outra, quando for pra ser, como for pra ser, nessa baguncinha linda que é a vida querendo ser vivida.

 

 

 

 

 

 

 

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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