Publicado em epifania, Sem categoria

Nunca pensei que isso aconteceria comigo. Achava que ser assaltada não tinha nada a ver com a história da minha vida. Me achava uma personagem intocável quando o assunto era assalto. Isso era coisa de só acontecer com os outros. Nunca comigo. Eu era invencível.

Talvez isso explique porque passei tão tranquilamente o celular para o homem que me ordenou que o fizesse, ainda que ele aparentasse estar mais nervoso do que eu. Aliás, poucas vezes em toda a minha vida estive tão calma quanto naquele momento. Nem sequer cogitei a possibilidade de reagir. Não tinha ensaiado aquela cena, não sabia o que fazer. Tive que improvisar. Segui meu caminho sem entender direito o que tinha acontecido, ainda meio incrédula, quase me perguntando se tinha lido com atenção o roteiro da minha história, porque não lembrava daquele episódio. Ser assaltada não tinha nada a ver comigo. Não combinava, a plateia ia perceber.

Foi só quando me dei conta do carro de polícia tão pertinho do ponto cego onde fui abordada que comecei a tremer e chorar e proferi o que houve. O policial não pareceu lá muito interessado em me ajudar, mas eu também não tive qualquer pretensão de recuperar meu celular desde que o entreguei assim, de bandeja. Foi também naquele momento que comecei a me culpar por não ter reagido. Por não ter defendido o que era meu – não só o celular, mas também a coerência de minha personagem, uma personagem inassaltável. Bem… Somos imortais até morrer, certo?

Segui meu caminho, como ia dizendo, rumo ao ensaio, passando por aquele estacionamento/atalho entre a Presidente Vargas e a Benedito Hipólito. Aquele, que tem o cenário perfeito para um assalto, e que eu atravessava toda terça e quinta, do alto de minha valentia, com fones no ouvido e música na voz, confiante na minha inassaltabilidade.

No acolhimento acalorado que o ensaio é, o choro foi cessando, a respiração foi voltando ao normal, a família foi sendo avisada que eu-tinha-sido-assaltada-mas-que-estava-tudo-bem-afina-é-isso-o-que-importa. A mente, é claro, volta e meia fugia para aquela cena, pensando nas outras possibilidades que me desvencilhariam daquela quebra de rotina sem perdas materiais. Mas o fato é que eu deixei ir meu celular, como deixei ir meu cabelo quase uma semana atrás. Tenho deixado ir uma série de coisas e uma série de outras coisas tem me deixado, sem que eu sequer opine se quero ou não que elas me deixem. Outras tantas coisas tem vindo em minha direção e ficado, mais fortes, ocupando mais espaço, criando mais raízes.

Fui me vestindo de personagem – dessa vez, uma personagem de verdade – e pensando na nossa fragilidade e na nossa prepotência. No quanto a gente se acha gigante e detentor de qualquer coisa quando é tudo tão transitório, tão efêmero. Em como um celular é tão pouco, embora a gente carregue tanto nele – tanta vida, tanto compromisso, tantos planos, tanto significado –, em como o Rio de Janeiro é uma cidade violenta e em como eu tenho sorte por ter vivido 23 anos sem ser assaltada. E isso não tem nada a ver com um discurso barato de otimismo a qualquer custo. É intenso demais, vívido demais, evidente demais.

É um milagre estarmos vivos. Há pessoas morrendo de fome e doença e guerra no mundo, mas nós acordamos vivos hoje, e ontem, e antes. A vida é uma trama formada por paradoxos de um nível incompreensível de complexidade. A arte e a vida se confundem o tempo inteiro, e, meu deus, como é lindo que a vida me pregue uma peça dessas no dia de um ensaio tão especial. Que roteiro danado… Justo numa fase (longa… inacabável) da minha vida em que a transição está se mostrando a única constância possível. Um momento em que eu sou puro caos e aceitação e desejo do caos.

É lindo estar dentro de um projeto tão caro pra mim. É lindo fazer loucuras, pegar atalhos, subir ladeiras, atravessar avenidas por algum amor. É lindo amar alguma coisa tanto quanto eu amo o teatro. É lindo estar inserida em um projeto sobre o amor em seu sentido mais político e menos vazio. Um projeto sobre levar a um patamar de protagonismo uma gente que sempre esteve à margem de qualquer teatro. Gente que faz greve destemida. Gente que fura greve com convicção e medo. Gente que finge que fura mas não fura porque teve medo demais. Gente que, – vai saber? -, eventualmente, assalta. É lindo ter a chance representar alguém, ainda mais do lado de gente que acredita na vida e sente a vida mais ou menos como eu. É lindo como a palavra representar tem significados que encaixam tão bem com tudo o que ela representa (viu?).

Fazer teatro é um milagre tão imenso quanto o de estarmos vivos. Um milagre sem deus. Um milagre aleatório, como só um deus poderia confeccionar. A gente é feito deus, mesmo, que existe sem explicação e segue existindo sem qualquer comprovação de existência. E não existe, também. É tudo junto e não se anula. É que a gente se ocupa em viver e não percebe isso, mas que loucura é pensar em si! É loucura ser concebido, é loucura se conceber.

Não sei absolutamente nada sobre o roteiro da minha vida, e a vida não se cansa de provar isso pra mim. Cada vez que me apego a uma certeza ela é tirada de mim sem pena. Mas sem raiva, também. A incompreensão dessa imparcialidade da vida me instiga. A cada dia percebo que sei menos e percebo que isso é lindo, que eu sou imensa.

A gente pensa personagem como uma coisa fechada, caricata. E olha que no pensamento cabe tudo, sem limite. Mas foi quando me vesti com o que tinha à mão, foi quando não estava limitada pela imensidão de possibilidades do meu pensamento, que delineei Dalva em sua infinitude. E foi quando me tiraram meu celular – palpável, ferramenta, matéria, coisa – que pensei nisso tudo, que é tão abstrato. Sabe quando a gente pensa tantos parágrafos assim de uma vez só? É doido, né? É imenso. Que nem eu, que sou pequenininha.

 

 

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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