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redemption song

Ontem o dia foi de uma peculiaridade – e, acho que posso dizer assim, de uma poesia – que merece registro. Fiquei querendo escrever sobre ontem durante todo o tempo em que estive feliz, o que durou uma quantidade considerável de horas.

A semana já começaria diferente por ter um feriado na quarta e um no sábado, e pelo fato de no dia anterior, domingo, eu ter me dado ao direito de fazer toda uma série de nadas, o que me ajudou a aliviar uma tremedeira ansiosa acumulada já há pelo menos uma quinzena. Ontem de tarde fiquei de resolver (mais) burocracias de um estágio da UERJ lá perto do Norte Shopping. Xeroquei a documentação necessária em cima da hora, porque foi o que deu pra fazer, e acabei chegando com meia hora de atraso.

A caminho de lá, no ônibus, reafirmei o que me ocorreu na semana passada, quando fui ao Meier, sobre gostar imensamente de quebras de rotina, de idas a lugares pouco ou nada conhecidos por mim, ainda que seja para resolver problemas. Talvez haja alguma arrogância nisso, mas ver as condições de vida do subúrbio da minha cidade me inundam de gratidão pela vida que eu tenho, e de empatia por quem “segue em frente sem nem ter com quem contar”. Em um dado momento, passou pela roleta uma senhora cuja idade eu não consegui adivinhar. Parecia ser mais uma daquelas tantas pessoas que aparenta ter mais idade do que realmente tem por causa da vida puxada que leva. Por via das dúvidas, ofereci meu lugar a ela, que agradeceu, segurou minha mochila e conversou comigo a viagem inteira. Ela saltou um pouco antes de mim sem que eu soubesse seu nome, mas me fez saber coisas que julgo profundamente pessoais, sobre ela mesma e sobre mim.

Entrou no ônibus um cara que não queria pagar a passagem. Ficou afrontando o motorista, que falava severamente com o cara, de igual pra igual, sem parecer temer. A senhora começou a falar que o motorista não devia se envolver, não devia questionar, “porque a gente nunca sabe, né”. O cara (branquíssimo, cabe dizer) queria mesmo botar uma banca e amedrontar o motorista, estava claro. “Era um sujeito estranho”. E as pessoas no ônibus começavam a se entreolhar. No fundo, pareciam dois irmãos brigando, sem ninguém querendo ceder. A senhora então começou a me falar de um parente – agora não lembro se sobrinho ou neto – que “cheira todo o dinheiro que ganha”. Tentei amenizar dizendo que droga é difícil, mesmo, que depois que começa é muito complicado largar, mas foi ingenuidade minha pensar que ela me falava com pesar. Falava era com afinco, com naturalidade e indignação, porque o tal cara teve a oportunidade de ir pra clínica de reabilitação, mas não quis. Que “tudo é o querer da pessoa”. Que “deus não faz o que a gente pode fazer. Deus só faz o que a gente não pode fazer”.

Dali a mais um pouco, o barraqueirinho desceu, e entrou pela porta de trás um desses moços daquele grupo de apoio a dependentes químicos que tem algum vínculo evangélico. Achei estranho porque, pelo que sei, esses caras só andam em dupla, e aquele estava sozinho. De todo modo, a senhora comprou a bolsinha que o cara vendia, dizendo que “o mais importante é o papelzinho [da instuitição] chegar na mão de uma mãe que está desesperada vendo seu filho perdido”. Não preciso nem explicar o símbolo que é aquela mulher ter contribuído com a causa mencionada pelo cara. Parece roteiro. É roteiro. Mais uma página do meu livro dos dias, esse livro de areia que eu escrevo há 23 anos.

Ela disse que minha marmita estava cheirosa. “É o frango”, eu falei, e ela me contou do panelaço de baião de dois que fez, e que a neta comeu de lamber os beiços. Disse que era aniversário dela. Dei os parabéns. Disse que fazia 70 anos. Setenta anos. “Olha, não parece, não”, falei. E não parecia. “Muito pelejado. Muito batalhado”, ela disse, poucos minutos antes de saltar. Voltei a me sentar naquele banco e saltei dois pontos depois.

Mesmo com o setor fechando às 15h, o cara me atendeu poucos minutos depois disso, assim que consegui encontrar a rua da regional. Com a nova documentação em mãos, o cara me disse que eu deveria levar aquele documento à escola, e que a própria escola encaminharia a folha assinada de volta à regional. Esse processo deveria acontecer em até 7 dias. Certo. Tudo ótimo. Fiquei tão feliz que consegui ser atendida que já tava comemorando o início do estágio.

Chegando na UERJ, comi com calma, xeroquei e li o texto de didática (que acabou que nem era pra ontem…), encontrei a mamãe e fiquei um tempo conversando com ela, e fui calma e pontualmente para a minha aula. Me peguei impressionada com as coisas dando tão certo sem que eu precisasse correr. É lindo quando acontece. A merda é quando a vida (ou minha mente) me arma uma surpresa na esquina.

Na aula de didática, lá pras 19h, foi que me dei conta: o moço disse 7 dias. Só planejava passar no Meier segunda que vem, pra já começar o estágio, direto, e aproveitar pra deixar o documento lá. Mas não dava pra ser assim, precisava entregar com a maior antecedência possível pra não dar nenhum rolo com a regional e acabarem me responsabilizando por isso. Quando me dei conta de que teria de ir ao Meier o quanto antes – e mais: que poderia ter ido ontem mesmo, direto depois da regional, já que quando saí de lá ainda não eram nem 16h e eu só tinha aula 18h15 – meu pensamento todo começou a desmoronar. Na verdade, que eu me lembre, foi quando vi que os ingressos pro show do Perotá estavam esgotados que me bateu a bad. Daí me toquei do negócio do estágio. E num piscar de olhos, num dia que estava sendo tão bom, a vida como que deixou de fazer sentido pra mim. Saí da UERJ com medo, até voltei de ônibus. Todos os problemas, medos, dúvidas foram vindo à tona, foram criando um verdadeiro inferno na minha mente. Fui coagida por mim. E tudo porque teria de dormir mais cedo pra acordar mais cedo pra ir ao Meier hoje antes do estágio na Eletrobras.

Chegando em casa, fiquei um tempo mexendo no celular, e acabei me distraindo – o que foi bom – e meditei. A diferença que meditar fez foi surreal. A Cal me mandou uns vídeos emocionantes do INTERMED e, depois da meditação, a epifania foi inevitável. Já estava melhor da cabeça, então adiantei o que pude do café da manhã – ovo, tapioca e café. Separei a roupa e arrumei a bolsa com tudo o que ia precisar pro dia inteiro. Fiquei um tempo conversando com Andressa e Carol, depois fui dormir. Mais tarde do que queria, mas fui.

Acordei às 6h hoje, e o sono ta começando a bater agora. Vale dizer que tapioca de véspera é uma coisa horrível. Mas enfim, me arrumei, peguei o ônibus e cheguei na escola às 7h. Me fizeram esperar (à toa, creio eu) até as 8h, e cheguei no estágio com meia hora de atraso, mas consegui avisar o Miguel e ficou tudo bem. Pronto. Ufa. Resolvido.

oA essa altura não estou mais em estado de epifania, muito menos de catarse, como julguei ter acontecido ontem. Estou, sim, de tpm. E apenas começando a aprender a viver e a lidar comigo, como já comecei tantas vezes. Nascer é cumprido, né? É isso. Nem o começo do aprendizado tem fim, que dirá o aprendizado por inteiro. É eterno exercício, mesmo, e talvez nem tenha um porquê.

Até agora, desde que cheguei no estágio hoje, fiquei cuidando do livro dos dias, e saiu essa página daí de baixo, que eu achei muito da bonita.

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Meu outubro demorou 11 dias para começar, para se fazer mês. Ainda não pensei nos dinheiros do mês, tenho feito tudo meio no improviso, como dá, quando dá, se dá, mas no geral, tem corrido tudo bem. Meus medos são os medos de sempre: de o dinheiro não dar, de o dinheiro sequer cair, de não dar boas aulas, de não ser boa aluna, boa filha, boa amor. Ainda me toma a preguiça, o desânimo de fazer as coisas, o não saber por onde começar por pretender o mundo, mas pelo menos meus medos não me paralisam. Começou a me paralisar ontem, terminou de me paralisar ontem. E vamos adiante. Quantas vezes forem necessárias.

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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