três dias de volta ao rio de janeiro e já se reinstalou esse amargo na minha garganta

as desculpas que invento pra mim mesma pra não meditar
esse jeito de ir levando a vida como se eu fosse muito leve e ficar me cobrando densidades [depois
medo de chegar atrasada
saber que eu vou chegar atrasada porque o ônibus nunca passa
medo do menino sem camisa vindo pro lado que eu tô
e a voz na minha cabeça dizendo “pelo amor de deus, é só um menino”
medo de a saia levantar
vergonha do meu corpo
segurar a saia o tempo todo
aquela raiva de estar fazendo isso de novo
mesmo depois de ter me prometido infinitas vezes que não faria mais
mal voltei e já ta tudo sem pé nem cabeça
já ta tudo fora de lugar
talvez eu é que não tenha lugar aqui

o ônibus chega e eu
com medo de sentar no banco da janela, do lado de um cara,
fico em pé, bem longe,
segurando a saia.

tem dias que parecem já começar errados
ou talvez só ontem terminou errado
ou porque eu não consigo alterar meu corpo
ou porque não consigo aceitá-lo

(de todo modo, a culpa é sempre minha, vê?)

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