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20/abril, 18h32

“Sem você”, escrevi, no título deste diário de viagem. Sem você, supostamente, deveria ser a trajetória. Mas eis-me aqui, depois da conturbação tepeêmística de ontem, achando bem lindo esse negócio de estar viva, cheia de sono (rumo ao terceiro café-sem-açúcar do dia) ouvindo uma playlist de música clássica do Spotify que, só depois de cair de encanto por uma faixa qualquer de Tchaikóvski fui ver que era você quem tinha criado a tal playlist. “BDNF”, se entitulava, e é claro que, te conhecendo como te conheço, presumi que aquela não deveria ser uma combinação aleatória de letras.

“Fator neutrófico derivado do cérebro”, foi o que descobri que significava a tal sigla, depois de uma rápida busca na internet. “Uma proteína [que] (…) age sobre certos neurônios do sistema nervoso central e do sistema nervoso periférico, ajudando na manutenção dos neurônios estabelecidos e permitindo o crescimento e diferenciação de novos neurônios e sinapses”.

Enquanto professora, devo dizer que detesto a Wikipédia, mas admito que ela pode ser extremamente útil na falta de uma você pra me explicar sem muitos rodeios o que isso significa. Na verdade, creio que me lembro vagamente de você comentar seu intersse por Tchaikóvski e sua obra. Lembro-me de mencionar que ele era gay – agora está tocando Wim Mertens. “Struggle for Pleasure”. Nunca ouvi falar. Lindíssima! -, e sabemos o quanto isso é relevante. Sabemos quantas vezes me orgulharei de tirar do armário meu Mário favorito – o de Andrade.

Enfim, ao descobrir superficialmente o que eram aquelas letras que davam nome à playlist, me senti numa espécie de PS. Eu te amo. Meio às avessas, visto que você não só está bem viva como vive a uma quadra de mim. Mas o fato é que sinto diversos vestígios de você ainda comigo. Como se nada tivesse acontecido. Nenhuma ruptura. Como se minha amiga, cúmplice, amor estivesse onde esteve nos últimos (quase) 3 anos. Meus pais ainda perguntam de você, e acredito que esse fator corrobore essa minha sensação eventual e perene de que ainda somos.

Tenho tentado reodecorar o quarto para que essa vinda à casa dos meus pais seja de fato uma vinda, como sugeriu a psicóloga, e não uma volta. Alojei DVDs e alguns livros queridos em um local bastante visível e me dei conta de que grande parte deles foram presentes seus. E quis engolir cada vez que te disse que sentia falta de mimo. Cada vez que estive tão preocupada em te exigir carinho de uma maneira x que nem percebi ou considerei as n maneiras suas de carinho que você me manifestava. Agora me sinto um Sísifo, eternamente destinada a te lembrar a cada filme do Almodóvar que eu resolver usar em sala de aula (ou rever por escolha própria, quando ou se superar minha pinimba com ele). A cada verso da Paulicéia Desvairada. A cada música do Metá Metá. A cada playlist de música clássica ou coisa nova que eu descobrir sobre você, ainda que eu já tenha conhecido antes. Você é como aqueles livros ou filmes que a gente lê ou vê muitas vezes e que a cada vez assimilamos uma informação nova. De areia, mesmo. Nunca dá pra voltar à mesma página, nunca dá pra concluir a leitura. Talvez muitas páginas eu nunca venha a conhecer, mas sinto que ainda tenho uma quantidade imensa de “material” a desbravar cuja origem fomos nós, foi você. Somos o que fazemos de nós mesmas, sim, mas também o que deixamos a outra fazer de nós. E talvez agora eu esteja te deixando fazer de mim mais do que meu orgulho (bobo…) havia permitido até pouco mais de um mês atrás.

Não digo nada disso com pesar, apesar de possivelmente parecer. É claro: fica em mim um “e se” que sempre fica em mim e que, creio, fica em você também. Como você fez questão de dizer diversas vezes, não temos como saber o que vai acontecer. Tudo o que sei é que, agora, eu preciso estar sozinha. Preciso me re-conhecer. Acredito que você precise um pouco da solidão de mim, também, ainda que aparentemente você lide melhor com termos contato do que eu.

Hoje não está tão difícil – te vejo em muito do que me atravessa o dia e sou grata por isso. Mas presumo que haverá mais dias como ontem, quando será mais dificil fincar pé e não te mandar um e-mail ou uma carta, quem sabe. De todo modo, me comparando a mim mesma de alguns anos (e relacionamentos) atrás, acho que me encontro numa situação emocionalmente mais madura, e isso faz com que eu me orgulhe de mim. Não consigo evitar supor que você provavelmente se orgulharia, mas o que me encanta mais ainda é que, apesar de todo amor (e, vá lá, certo tipo de saudade), estou feliz pelo fato de meu orgulho sobre mim mesma me bastar.

Estou feliz comigo mesma por ter tido um ótimo dia sem você por perto, ainda que tenha havido tanto de você emanando pelos caminhos que eu tracei.

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Autor:

Carioca, 22 invernos, leão com touro. Gosto de apreciar e busco produzir arte. Sou professora. Faço cadernos. Amo. Assim, intransitivo, mesmo.

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